O CINEMA DA MARGEM SOCIAL: religiosidade e saberes dos jardins medicinais as periferias de Porto Seguro-BA.
Cinema e poder; Representação social; Subalternidade; Cinema documentário periférico; Complexo Baianão.
O cinema documentário produzido nas periferias brasileiras tem se afirmado como um campo de criação estética e política capaz de tensionar as narrativas sobre os territórios marginalizados. No contexto do sul da Bahia, as zonas periféricas de Porto Seguro/BA, emergem como espaço simbólico para a produção audiovisual que articula arte, memória e resistência social. Inserida nesse cenário, a presente pesquisa teve como objetivo analisar as representações da periferia nas obras A Reza é de Deus! (2021) e Mestres e Mestras dos Saberes (2021), dirigidas por Reinan Ribeiro. O estudo investigou como esses documentários constroem imagens e narrativas que expressam modos de vida, religiosidades e práticas culturais de moradores como Dona Mariinha (in memoriam), Senhora Vilma e Senhor Benjamim. A análise buscou compreender de que forma essas produções configuram o ambiente periférico para além de um espaço de carência e desigualdades, mas instituem como um território de criação significativa e simbólica em que relaciona-se os saberes de comunidade. A pesquisa fundamentou-se em autores como Alinny Anjos (2021), Francisco Santos-Júnior (2011), Cezar Migliorin (2010), Ivana Bentes (2010) e Bill Nichols (2005), articulando o debate sobre o papel político do documentário e o cinema de periferia como espaço de auto-representação. Adotou-se a Teoria dos Cineastas (Graça; Baggio; Penafria, 2015) como base metodológica, privilegiando a análise das obras a partir de seus procedimentos estéticos, escolhas narrativas e relações com o território. Os resultados revelam que os documentários de Reinan Ribeiro constroem uma representação cinematográfica da periferia que ultrapassa a visão centrada nos espaços urbanos da cidade. Suas obras recontam a história de Porto Seguro/BA a partir das margens, evidenciando as experiências, memórias e práticas contemporâneas que constituem a vida nas zonas de exclusão social. Ao transformar essas vivências em linguagem cinematográfica, os documentários projetam a periferia como território produtor de sentido, cultura e história, reafirmando o cinema como meio de expressão, pertencimento e (auto)representação do território periférico. Nesse sentido, o trabalho reforça a relevância do cinema documentário como instrumento de reflexão crítica e produção de conhecimento sobre os territórios marginalizados, favelas e zonas de exclusão. A pesquisa também aponta possibilidades para estudos futuros que ampliem o diálogo entre cinema, território e transformação social, valorizando as narrativas que emergem das bordas e reconfiguram as formas de compreender a cidade, agentes, atores e atrizes sociais.