Ocorrência e distribuição de Culicidae associados a bromélias em áreas naturais e urbanas no Sul da Bahia
alterações ambientais; bromeliaceae; fitotelmata; mata atlântica; mosquitos.
Os mosquitos da família Culicidae (Diptera) possuem relevância ecológica e sanitária, atuando como vetores de protozoários, helmintos e arbovírus, além de serem bioindicadores de qualidade ambiental. No entanto, a fragmentação da Mata Atlântica e o avanço da urbanização vêm alterando a composição dessas comunidades, favorecendo espécies oportunistas e de importância médica. Dentre os ambientes utilizados por esses insetos para oviposição, destacam-se as bromélias (Bromeliaceae), cujos fitotelmatas funcionam como microecossistemas que sustentam elevada diversidade biológica. Nesse contexto, esta dissertação, inserida na linha de pesquisa Sistemas Naturais e Antrópicos, buscou compreender como as alterações ambientais influenciam a fauna de Culicidae em bromélias do sul da Bahia, região estratégica pela biodiversidade e pela presença de doenças transmitidas por vetores. O objetivo geral foi analisar a ocorrência, distribuição e abundância de Culicidae associados a bromélias, avaliando o impacto da fragmentação florestal e do uso do solo, com ênfase em espécies vetoras. Para isso, foram amostradas sete localidades entre 2021 e 2025, incluindo fragmentos de Mata Atlântica em Unidades de Conservação e áreas urbanas de Porto Seguro - BA. As coletas abrangeram diferentes espécies de bromélias terrestres, nas quais foram mensurados parâmetros morfológicos e físico-químicos da água armazenada em seus fitotelmatas. As larvas coletadas foram criadas em laboratório até a fase adulta para identificação ao menor nível taxonômico possível. A diversidade foi avaliada por curvas de rarefação e números de Hill (q0, q1 e q2), enquanto a composição foi analisada por Escalonamento Multidimensional Não-Métrico (NMDS), PERMANOVA e testes de espécies indicadoras (IndVal). Foram identificados 11 táxons de Culicidae, distribuídos em duas subfamílias (Anophelinae e Culicinae) e quatro tribos (Aedini, Culicini, Sabethini e Toxorhynchitini), totalizando 4.089 indivíduos. O gênero Culex, especialmente o subgênero Culex (Microculex), foi dominante e presente em todas as áreas, seguido por Aedes (Ochlerotatus) e Wyeomyia sp. Nas áreas naturais, a cobertura amostral foi suficiente para abranger todos os grupos esperados segundo os índices de diversidades de Shannon e Simpson. Enquanto nas áreas urbanas a diversidade estimada mostrou-se superior, sugerindo maior heterogeneidade ambiental proporcionada pela presença de bromélias ornamentais. As análises de composição revelaram diferenças significativas entre localidades e entre tipos de área (silvestres e urbanas), indicando que tanto a paisagem quanto fatores microambientais moldam a estrutura das comunidades de mosquitos. Os resultados indicam que a fauna de Culicidae em bromélias reflete a interação entre processos naturais e antrópicos. Embora espécies nativas continuem predominando em áreas florestais, a presença de vetores urbanos como Aedes aegypti em bromélias ornamentais ressalta riscos potenciais à saúde pública. Além de preencher lacunas de conhecimento sobre a fauna local, o inventário em construção subsidia estratégias de conservação da biodiversidade e ações de vigilância entomológica, destacando a importância de integrar abordagens ecológicas e sanitárias na gestão de ambientes naturais e urbanos.