Composição, Estrutura e Bioeconomia da Flora da Restinga no Refúgio de Vida Silvestre do Rio dos Frades, Porto Seguro, Bahia
Restinga; etnobotânica quantitativa; sociobiodiversidade; Produtos Florestais Não Madeireiros; conservação costeira; manejo sustentável.
A flora de restinga do sul da Bahia permanece sub-representada em inventários florísticos e estudos sobre o potencial de uso de suas espécies nativas. No Refúgio de Vida Silvestre do Rio dos Frades (RVSRF), a heterogeneidade das fitofisionomias amplia a necessidade de compreender a composição florística e sua distribuição no território, bem como os usos documentados das espécies. Esta dissertação teve como objetivo geral analisar a diversidade e a similaridade florística das angiospermas de restinga do RVSRF e identificar e priorizar espécies nativas quanto ao potencial bioeconômico, considerando informações de uso, ocorrência e atributos ecológicos e de conservação. Partiu-se das hipóteses de que as áreas estudadas apresentariam elevada similaridade florística e de que mais de 50% das espécies registradas apresentariam usos documentados na literatura científica. O estudo foi estruturado em dois capítulos complementares. O primeiro analisou a composição florística, a diversidade e a similaridade de angiospermas em 100 ha distribuídos entre as margens esquerda e direita do Rio dos Frades, com coletas realizadas entre dezembro de 2024 e agosto de 2025, complementadas por registros do Herbário GCPP da UFSB e dados publicados na literatura científica. Foram registrados 289 indivíduos, pertencentes a 141 gêneros e 66 famílias, com destaque para Myrtaceae (23 spp.), Fabaceae (18), Cyperaceae e Rubiaceae (15 cada) e Eriocaulaceae (13). Do conjunto, 128 táxons foram identificados em nível específico, 62 em nível de gênero e 11 indivíduos permaneceram indeterminados. Foram identificadas 11 fitofisionomias, oito em A1 e dez em A2, com duas exclusivas de A2. A similaridade florística entre as áreas foi baixa (J = 0,205), não confirmando a hipótese de elevada similaridade, enquanto a similaridade entre os conjuntos de fitofisionomias foi elevada (J = 0,80). Também foram registradas espécies endêmicas da Bahia e táxons ameaçados. O segundo capítulo avaliou o potencial bioeconômico por meio de revisão de escopo conforme o PRISMA-ScR. A etapa exploratória resultou em 4.371 documentos, e 1.629 artigos revisados por pares foram analisados nas bases Web of Science, Scopus e SciELO, entre 2020 e 2025. Usos documentados foram identificados para 95 espécies (74,2%), confirmando a segunda hipótese. Trinta e uma espécies foram selecionadas pelo Índice de Ordenação (IO), das quais 17 apresentaram registros suficientes para o cálculo do Valor de Uso (UV). Anacardium occidentale apresentou o maior UV (0,616), seguido por Eugenia uniflora (0,203) e Schinus terebinthifolius (0,135). O uso medicinal predominou (47%), seguido pelos usos alimentar (17,9%) e agroecológico (17,4%). As espécies foram classificadas em quatro grupos de prioridade bioeconômica com base no UV, considerando, na interpretação dos grupos, informações sobre ocorrência, fitofisionomia e estado de conservação. Em conjunto, os resultados mostram que a heterogeneidade das fitofisionomias está associada a diferentes conjuntos florísticos, enquanto a literatura evidencia usos diversificados. A dissertação demonstra que a frequência de registros na literatura não é suficiente para representar isoladamente a relevância bioeconômica ou ecológica das espécies em escala territorial. Os resultados ampliam o conhecimento sobre a flora de restinga do sul da Bahia e fornecem subsídios para conservação, monitoramento, pesquisa e valorização responsável da sociobiodiversidade, sem pressupor que o uso documentado corresponda, por si só, à viabilidade comercial.