RELIGIOSIDADE E IDENTIDADE QUILOMBOLA DAS MULHERES DA COMUNIDADE DO FÔJO, DO MUNICÍPIO DE ITACARÉ/BA
comunidade quilombola; mulheres quilombolas; identidade; memória; Sul da Bahia.
Esta pesquisa tem como campo de estudo a Comunidade Quilombola do Fôjo, fundada em 1880 no distrito de Taboquinhas, município de Itacaré, Bahia, situada no Território de Identidade Litoral Sul. Cercado pela Mata Atlântica e banhado pelo Rio de Contas, o quilombo constitui um espaço de memória, ancestralidade e resistência. O estudo tem como tema central o pertencimento identitário quilombola e as relações com a religiosidade das mulheres da comunidade, inserindo-se no campo das tensões políticas, sociais e culturais que marcam a afirmação e conservação da identidade quilombola em contexto pós-abolicionista. A pesquisa parte da história silenciada de Maria Bonita, liderança feminina vinculada às religiosidades de matriz africana, cuja memória foi apagada nas narrativas oficiais, e busca contrastar com história de três mulheres quilombolas do Fôjo, de religião cristã. Ao evidenciar suas trajetórias, busca-se identificar como a religiosidade dessas mulheres fortalecem ou fragilizam seus papéis de liderança na comunidade e a suas identidades quilombolas. O objetivo da pesquisa é analisar, por meio de histórias de vida de mulheres quilombolas da comunidade do Fôjo do município de Itacaré/Ba, as relações entre religião cristã (com destaque para a evangélica pentecostal) e religiosidade de matriz africana, em interseção com sua atuação social e política. Os objetivos específicos incluem: recontar a história de Maria Bonita; coletar narrativas de três mulheres da comunidade na perspectiva da religiosidade; analisar tensões entre a história oficial e as fontes orais; identificar formas veladas de silenciamento e apagamento; e tensionar as relações entre religião pentecostal e identidade negra-quilombola. A relevância científica e social da pesquisa está na recuperação da memória de uma liderança feminina apagada, na análise dos impactos da religião sobre o pertencimento identitário e na identificação das mulheres formadas como lideranças na comunidade. Este estudo fundamenta-se na oralidade, compreendida como prática ancestral e epistemológica das culturas quilombolas. Como afirma Hampâté Bâ (2003), a oralidade constitui um modo de transmissão de saberes que preserva memórias, histórias e modos de existência coletivos. A abordagem metodológica adotada será qualitativa, de tipologia descritiva, conforme Denzin e Lincoln (2011). Utiliza-se, ainda, a Fabulação Crítica, a partir da proposta de Saidya Hartman (2020), articulada ao método de História de Vidas das mulheres quilombolas do Fôjo, sob a perspectiva apresentada por Anabel Moriña (2017; 2018). O Estado da Arte revela que, embora existam estudos sobre o Fôjo, nenhum conferiu centralidade à figura de Maria Bonita ou às relações entre religião cristã e religiosidade de matriz africana sob a perspectiva das mulheres quilombolas pesquisadas. Assim, este estudo contribui para o campo das pesquisas sobre memória, narrativa e identidade, articulando escrevivências quilombolas com categorias como ancestralidade, religiosidade, gênero e resistência, e reafirmando o protagonismo das mulheres na construção da história e da identidade cultural do Fôjo.