MATEMÁTICA LIBERTÁRIA E TERRITÓRIO USADO: JUSTIÇA ESPACIAL, DECOLONIALIDADE E O IMPACTO DA LICENCIATURA INTERCULTURAL INDÍGENA NO EXTREMO SUL DA BAHIA
Educação Escolar Indígena; Povo Pataxó; Matemática Libertária; Justiça Espacial; Decolonialidade; LINTER.
A presente tese de doutorado, intitulada "Matemática Libertária e Território Usado: Justiça Espacial, Decolonialidade e o Impacto da Licenciatura Intercultural Indígena no Extremo Sul da Bahia", propõe uma imersão profunda na relação entre saberes acadêmicos e tradicionais no território Pataxó. A pesquisa investiga o impacto do curso de Licenciatura Intercultural Indígena (LINTER) do IFBA/Campus Porto Seguro na formação de professores indígenas. A análise central fundamenta-se na superação da dicotomia entre preservação cultural e influência de vetores exógenos da globalização, como a urbanização e a tecnologia, e propõe o ensino da matemática não como mera transmissão de conteúdo, mas como uma ferramenta de autonomia e justiça espacial. O trabalho desenvolve o conceito inovador de "Matemática Libertária", avançando em relação à visão puramente preservacionista e folclórica da Etnomatemática. Essa nova categoria analítica fundamenta-se nas Epistemologias do Sul, notadamente no pensamento de Boaventura de Sousa Santos, para confrontar o pensamento abissal e o racismo epistêmico que invisibilizam as lógicas indígenas. O estudo articula a ecologia de saberes e a biointeração de Antônio Bispo dos Santos, que validam a oralidade e o grafismo Pataxó como tecnologias de ponta e de resistência, com a descolonização mental de Frantz Fanon, essencial para a reabilitação do sujeito originário. A partir dessa base epistemológica, a tese argumenta que a apropriação dos saberes acadêmicos, como a robótica e as TICs, não se configura como ameaça aculturadora, mas como uma apropriação tática e inegociável, fortalecendo o "Professor Libertário". Ancorada também na Geografia Crítica de Milton Santos, a pesquisa entende a aldeia (aqui, em destaque, a Aldeia da Jaqueira) não como recurso inerte, mas como o território usado, um espaço de vida e contraposição à globalização perversa. A matemática, antes vista como vilã, é convertida em escudo ontológico, e os cálculos passam a ser mobilizados para a gestão do território e a defesa de fronteiras. A pesquisa realizou um rigoroso Estado da Arte (2010-2025), atestando a carência de estudos de impacto que mensurem a formação docente nas comunidades. Como inovação metodológica, o estudo alia essa revisão à abordagem empírica quali-quantitativa, utilizando instrumentos psicométricos validados para quantificar a eficácia dessa formação, em um passo decisivo rumo ao empoderamento socioeconômico. A tese até escrita (qualitativamente) indica, portanto, que a Matemática Libertária é um ato de retomada, uma tática de sobrevivência que possibilita ao povo Pataxó transitar criticamente pela modernidade, sem abdicar da soberania intelectual e territorial que define a sua reexistência.